Motivos pelos quais o sistema precisa de Bolsonaro - Iniciativa Revolução Universal

 Motivos pelos quais o sistema precisa de Bolsonaro - Iniciativa Revolução Universal

O Bolsonarismo, seja com o pretexto de combatê-lo ou para melhor apoiá-lo, é um convite à submissão às instituições do sistema. Em ambos os lados está a defesa inquestionável da disciplina social capitalista, da sujeição em massa ao Estado todo-poderoso, seja para conjurar a “ameaça esquerdista” cujo perigo estaria no retorno do PT ao poder (segundo os bolsonaristas), ou para prevenir a “ameaça fascista” representada pelo demônio-chefe Bolsonaro. Produto máximo da contra-revolução e terror de Estado após a derrota da onda de rebeliões de 2013-2014, o Bolsonarismo representa a tentativa maior de fazer a classe trabalhadora aderir à colaboração com o Estado e fraternizar com os exploradores.

O Bolsonarismo está na moda...Não é só a esperança dos energúmenos, a juvenil ressurreição do malufismo ou um upgrade da onda Collor, cuja “caça aos marajás” que reivindica se chama Lava-jato – só que com feições declaradamente ditatoriais ao contrário do seu original, que prometia a todos libertar da herança do regime militar-fascista, apostando em uma “modernização do capitalismo brasileiro”. Sua cópia deficiente do século 21 promete utopicamente puxar o capitalismo para o passado e por isso, olha para trás. Nesse sentido, não tem credibilidade nem entre os capitalistas. E onde já existe, sua credibilidade é temporária por apostar nos limitados efeitos repressivos contra as lutas sociais. Produto máximo da contra-revolução e do terror de Estado que sucedeu ao esmagamento da classe trabalhadora após a derrota da onda de rebeliões de 2013-2014, o Bolsonarismo representa a tentativa maior de fazer a classe trabalhadora aderir à colaboração com o Estado e fraternizar com os exploradores. O Bolsonarismo é um convite à participação eleitoreira, à submissão às instituições do sistema – seja com o pretexto de combatê-lo ou para melhor apoiá-lo...e de instituições e espaços do capital para colaborar são oferecidos todos os tipos...para todos os gostos: Forças Armadas, eleições, sindicatos, imprensa, alianças antifascistas, canais do YouTube, poder judiciário, movimentos regressistas que o apoiam, ONGs que o combatem, etc. A “polarização” que alimenta o Bolsonarismo e a qual ele alimenta impõe “saída” dentro do sistema, as mesmas saídas que toda a vida foram, são e serão a tragédia da classe trabalhadora (neoliberalismo, petismo, tucanos, versões radicalizadas do petismo, partidos nanicos, patriotismo, identitarismo, legalidade, Estado policial, etc.). A carta Bolsonaro representa o abandono da luta nas ruas, a desistência da revolta social contra todas as mediações e meios legais...substituída pela corrida para as urnas, onde como bois correndo para o matadouro, a classe trabalhadora é “convidada” a manifestar lealdade a alguma das versões das gestões oferecidas pelo capitalismo para continuar a ditadura dos patrões por meio do Estado. Para combater o anti-Bolsonarismo, lançado uniformemente na caixa do “esquerdismo” pelo rebanho de Bolsonaro, não importando quão liberais sejam seus adversários (de colunistas jornalísticos ao bloco Alckmin/Meirelles/Dias/Amoedo/Marina), os bolsonaristas por mais defensores de golpes e ditaduras militares que se digam, lançam mão da participação eleitoreira e das investidas partidárias e institucionais para ocupar espaços de governança e zonas de influência, do legislativo ao judiciário, das igrejas evangélicas a coalizões empresariais. Os bolsonaristas pelo menos aprenderam com a História que o melhor passo para o fascismo passa pelo aproveitamento do Estado e dos aparelhos administrativos, repressivos e ideológicos da democracia. Os anti-bolsonaristas, falando com linguagem apocalíptica, como se todos estivéssemos vivendo a véspera do fim do mundo e como se nunca tivessem feito nenhuma das coisas que Bolsonaro faz e propõe, fazem todo tipo de aliança possível, juntando inclusive lados rivais e concorrentes durante o golpe de 2016, apelam a processos judiciais, denúncias midiáticas, ativismo de internet e pregam que o único meio de deter a maré fascista está no fortalecimento das instituições democráticas: as mesmíssimas instituições que são os degraus que dia após dia Bolsonaro escala em direção ao poder. Em ambos os lados está a defesa inquestionável da disciplina social capitalista, da sujeição em massa ao Estado todo-poderoso, seja para conjurar a “ameaça esquerdista” cujo perigo estaria no retorno do PT ao poder (segundo os bolsonaristas), ou para prevenir a “ameaça fascista” representada pelo demônio-chefe Bolsonaro. Isso quer dizer que a derrota da revolta de 2013 cumpriu seu objetivo, esperado pelas forças do capitalismo no Brasil e no resto do mundo: substituir a luta de classes pela disputa eleitoreira, o confronto entre revolução e contra-revolução pela amigável disputa entre duas opções capitalistas, ainda que as mesmas terminem com algumas Marielles mortas e facadas eventuais no representante de um dos lados. Nada de greves gerais (ver a respeito disso o posicionamento da “esquerda” e de Bolsonaro contra a recente rebelião dos caminhoneiros), nada de quebra da legalidade, nada de enfrentamento contra as forças da lei e do Estado, menos ainda enfrentar a ditadura dos patrões nos locais de trabalho, nada de enfrentamento direto e frontal aos representantes do fascismo (“isso vai dar motivo para eles se tornarem violentos” dizem petistas e outros representantes de “esquerda” interessados no extermínio da resistência trabalhadora).E nem pensar em interrupção da campanha eleitoral, em promover movimentos e lutas que perturbem a tranquilidade da ordem capitalista, tranquilidade tão necessária a um processo eleitoral limpo, que com todas as amarras da lei e da legalidade elegerá novos ladrões e dará continuidade ao roubo e ao massacre sobre a classe trabalhadora.

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A maior ameaça a todos os protagonistas, forças e setores envolvidos certamente é a resistência da classe trabalhadora à farsa eleitoral. Desde o escândalo do mensalão em 2005-2006, cresce o boicote às eleições, o voto nulo, como resistência silenciosa de parcelas cada vez maiores da classe trabalhadora que finalmente acordou para o fato de as eleições serem somente um meio de incriminá-la pelos crimes dos governantes, de lançar-lhe a autoria de desmandos e atrocidades que fatalmente serão feitas; tenha ela apoiado ou não o político no poder, independente de quem for eleito. As eleições são um fantasioso e repetitivo ritual em que a classe trabalhadora é forçada a legitimar o sistema, a dar credibilidade ao Estado, que continuará mandando, explorando e escravizando, em seu nome, sempre dizendo que assim foi decidido por meio do “voto popular” e justamente por isso as coisas devem continuar como estão. As eleições são o melhor meio de fazer o roubo e os interesses de alguns parecerem a vontade de todos, porque em determinado momento foi dado aos eleitores o poder de “escolher”, ainda que as opções disponíveis já tenham sido pré-escolhidas por outros poderes e ao transferir – e portanto perder- poder no ato de votar, a classe trabalhadora jamais conseguirá controlar os atos de quem elegeu, menos ainda através das leis que os próprios eleitos aprovaram em benefício próprio.A classe trabalhadora há anos, em proporções cada vez maiores, vem abandonando o improdutivo hábito de votar; tem percebido que tomar parte em eleições é apoiar seus exploradores e apenas dar argumentos aos seus inimigos. A deserção das urnas é o primeiro passo para tomar as ruas, para partir à ação direta e à ofensiva na guerra social contra governantes e patrões, único caminho onde pode decidir de verdade o seu futuro, exercendo o seu próprio poder e não transferindo-o a supostos “representantes” que vão esfaqueá-la em seu nome. A escalada de boicote eleitoral a partir de 2006 e o confronto cada vez maior da classe trabalhadora contra o Estado brasileiro (representado pelo petismo e portanto, confronto com o próprio petismo), a partir de 2007-2011 foram as condições para o levante de 2013. Os patrões e governantes não desconhecedores desse risco e vendo o sinal de alerta, inclusive com o agravamento da crise econômica e novos potenciais para um novo 2013, resolveram investir em duas coisas: em repressão e terrorismo de Estado e em pacificação social através da colaboração da classe trabalhadora com o sistema, polarizando a sociedade em duas opções capitalistas. O golpe de 2016 é o ponto de encontro entre ambas as tendências e já representa uma classe trabalhadora desmoralizada e derrotada. O advento do Bolsonarismo é fundamental dentro dessa realidade por dar novamente ares messiânicos às eleições, viés messiânico que a política na prática já havia perdido. A idealização da política representada pela massificação do “fenômeno Bolsonaro” desperta recrutamentos apaixonadamente imbecis a “favor” e “contra” e portanto, faz o ato de votar parecer ter sentido, faz a tomada de posições eleitoreiras parecer sensata e dá ao próprio processo eleitoral a aparência de que realmente seria capaz de mudar alguma coisa. Processos eleitorais mudam características administrativas e operacionais do sistema, desde que o mesmo programa social seja mantido, as mesmas instituições e processos de dominação estejam em vigor e que o mesmo projeto histórico permaneça inalterado. O Bolsonarismo lança areia aos olhos em relação a tudo isso e, dentro dessa perspectiva é um jogo lucrativo para o sistema capitalista e para todas as suas facções de “direita” e de “esquerda”. Bolsonaro é a salvação de todos os ladrões, começando pelo tripé PT/PSDB/PMDB. Que o indivíduo Bolsonaro seja um demente cuja boca é o alto-falante das viúvas da ditadura militar, de ignorantes convictos, da indústria armamentista, de milícias e grupos de extermínio, de latifundiários e grileiros, de parte dos golpistas de 2016, de fanáticos religiosos, de malufistas órfãos, de interesses japoneses e de alguns empresários norte-americanos e israelenses (históricos financiadores de sua campanha)...é indiscutível. Mas para deleite dos políticos e boa saúde do sistema, Bolsonaro é o demagogo certo no lugar certo e na hora certa.

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Triunfante ou derrotado nas eleições de 2018, o Bolsonarismo já triunfou. Do ponto de vista do capitalismo e do poder estatal, a utilidade do fascismo bolsonarista oxigena as políticas repressivas, mantém a classe trabalhadora mobilizada em estado permanente em favor de uma ou outra opção eleitoreira -enquanto se distrai dos seus verdadeiros problemas, dando as costas a eles e deixando de se mobilizar por conta própria em prol das próprias necessidades. Do ponto de vista do sistema como um todo, o Bolsonarismo desvia todo o foco a respeito da rebelião social e da contestação às autoridades, a respeito do sistema constituído, das estruturas de poder e quanto às relações sociais. O Bolsonarismo, como fez o getulismo, o lacerdismo, o regime militar, Collor, o petismo ou as retóricas anticorrupção fala junto com essas tradições a mesma linguagem de “purificação” das instituições burguesas. De salvar o Estado e o capitalismo de “gestores malvados”, de “partidos e facções malignas”, de hábitos e costumes que estariam atrapalhando o “bom funcionamento” da máquina de moer carne humana e produzir lucro engraxada com sangue. O bolsonarismo teria as propriedades mágicas, como seus antecessores de “direita” e de “esquerda” de fazer as coisas “voltarem a funcionar em benefício de todos”, quando é verdade cabal que sempre funcionaram e funcionarão em serviço dos mesmos. Genericamente falando, o Bolsonarismo é lucrativo ao capitalismo como um todo e a todos os patrões e governantes, porque:

• A concorrência Bolsonarismo/Anti-Bolsonarismo mais esconde do que mostra;

• O Bolsonarismo tem fontes na ideologia anticorrupção(que inocenta a ordem social burguesa e joga toda a culpa nas “deficiências morais” ou na “conduta pessoal” de alguns gestores e carrascos), no antipetismo de origem malufista, no mais truculento extremismo de “direita” (voltado especialmente para o ataque a pessoas), e no patrulhamento ideológico, principalmente nos meios virtuais, que ele aprendeu e espelha dos seus rivais “esquerdistas” (especialmente desse espírito de rebanho da atualidade chamado feminismo): graças a isso propaga e impregnou as demais facções políticas (nelas é uma postura reativa) de colocar em primeiro plano pessoas, qualidades pessoais e imagens partidárias, fazendo passar despercebido o sistema dos quais as pessoas, partidos e organizações não passam de peças no tabuleiro – sistema que é o mesmo e que todos elas representam;

• O Bolsonarismo permite a velhos e novos personagens políticos maquiarem a própria imagem e assim restaurarem ou ganharem adeptos na medida em que o apoiam ou criticam-no. Assim, o Bolsonarismo é a reciclagem da política e torna mais atraente aos olhos dos dominados o aprimoramento da dominação;

• Por declarar-se “independente” ou de “fora da política”, embora seja um político veterano e atolado do rabo ao pescoço com o que chama de “política tradicional”, Bolsonaro contribui ao sucesso de todas as clientelas e freguesias eleitorais. Nas cabeças dos seus sectários faz sua politicagem eleitoreira e a velha e tradicional demagogia, aliadas a algum palavreado ofensivo (é que o faz parecer “inédito” e “radical”) passarem como irreverente “postura revolucionária”. Isso aumenta o número dos seus eleitores e valoriza o passe para cacifar alianças com coroneis locais e nacionais – os donos dos velhos poderes que diz combater. Logo, Bolsonaro faz a política de sempre, que sempre é e será feita pelos mesmos meios, investindo na imagem de “isenção truculenta”. A lenda da “isenção” também ajuda a silenciar e a domesticar parcela do proletariado que esboça algum processo de ruptura com a política, que já concluiu que do sistema não virá a mudança e ensaia alguma transgressão contra o Estado. Mas tal parcela do proletariado ainda é refém do jogo de aparências e sofre de pesados vícios ideológicos (patriotismo, anticorrupção e outras burrices). A receita tem sido usada com sucesso em experiências recentes onde grupos políticos tradicionais caíram em desgraça ou amargam o desgaste(Filipinas, Hungria, Estados Unidos). É a farsa populista do “político anti-político”, que supostamente teria vindo de “fora da política”. Essa farsa floresceu em São Paulo com o “gestor” Dória, cabo eleitoral de Collor, o mais político entre os empresários (depois de Skaf), que sempre viveu de subvenções estatais graças a amizades políticas e que depois da onda regressista em massa de 2015-2016 pôde bancar o espetáculo do “personagem vindo de fora da política”, que politicamente conseguiu colocar uma cidade inteira no bolso e ficar ainda mais rico! Foi com a lenda do “político anti-político” que o fascismo chegou ao poder. Hitler e Mussolini eram políticos experientes e de larga data, cujo marketing político era o de se dizerem “de fora da política”. Para os opositores do Bolsonarismo é a prova de que “ser contra políticos” só pode ser coisa de “fascista” e por isso, o caminho da liberdade está em se curvar ao Estado, e aos patrões, respeitar a lei, a moral e os “bons costumes” e não esquecer de se enfileirar atrás de uma urna para ganhar “o reino da prosperidade”. Seja em nome do mito leninista da “tática” – que nunca leva a revolução alguma - ou em defesa da cidadania, que é a democrática servidão ao império da lei e logo, a ditatorial estatização do cotidiano. Para os concorrentes de Bolsonaro sua “anti-política” retórica aliada à sua agressividade verbal faz a política, esse jogo sujo da escravização social, valer algo de “remédio contra o fascismo”, de lugar sagrado onde se preza a paz e se abomina os “aventureiros” e daí, valoriza imbecilidades como “voto consciente” e “voto útil”, que serão muito úteis a velhos coronéis e ladrões consagrados – de “direita” e de “esquerda” – incomodados com a popularidade de “novatos mal-educados”, que não merecem estar entre eles e tampouco ocupar o trono...ou ter direito à chave do cofre;

• Como resultante dos fatores mencionados, o Bolsonarismo e sua aura de apoio ou ódio imediatos e incondicionais que desperta, cega a respeito da identidade de programa e finalidade que todos os políticos e facções políticas carregam quanto a manter o domínio do capitalismo e logo, quanto aos mesmos pisotearem a classe trabalhadora;

• Frente a uma classe trabalhadora que há alguns anos vem crescentemente boicotando eleições e recusando legitimar o Estado, Bolsonaro representa antes de tudo novas esperanças no processo eleitoral e portanto, renova a fé no Estado, reconstruindo sua imagem e poder mistificadores;

• Contra uma classe trabalhadora que desde 2013 manifestou aberta oposição ao todos os políticos e governantes em todas as instâncias (municipal, estadual, federal), Bolsonaro faz renascer do esgoto a farsa do “voto útil”, e a aposta ou no “salvador” ou no “menos ruim”. Para seus apoiadores, é a volta do “salvador da pátria”, mito que o capitalismo brasileiro explorou milhões de vezes (Princesa Isabel, Vargas, JK, Jânio Quadros, Tancredo, Collor, Lula...) e continuará explorando enquanto existirem idiotas fanatizados com o poder “redentor” e “transformador” do voto e que virá de quem estiver no trono, versão político-administrativa do messias judaico-cristão. Para seus adversários, é o perigo fascista

De um ponto de vista mais circunstanciado, dos seus concorrentes, Bolsonaro é ainda mais lucrativo. Ao cometer o sincericídio de manifestar ódio por grupos identitários, etnias, gêneros, aplaudir genocídio e tortura e expressar de modo aberto e declarado seu ódio pela humanidade, Bolsonaro chama para si os crimes de todos os seus pares e acaba inocentando todos os políticos e patrões. Importante lembrar que a rebelião de 2013, começou com uma questão localizada a respeito de “transporte urbano” - em verdade se tratava de uma reação da classe trabalhadora à repressão estatal, ao aprofundamento da exploração representado pela alta do custo de vida que as tarifas do transporte tornaram visível...tal rebelião em questão de dias se voltou contra todos os políticos e todos os partidos. Bolsonaro devolve-lhes a honra perdida e promove uma verdadeira lavagem de reputação a criminosos célebres que agora podem ter novas condições de ludibriar a classe trabalhadora com a desculpa de que se “opuseram ao monstro Bolsonaro” (como se ele fosse o único monstro nessa história e como se o que ele declara publicamente não fosse as intenções e projetos sinceros de todos os políticos e patrões, de Boulos a Marina, de Meirelles a Haddad, de Alckmin a Ciro). O que parte dos capitalistas não perdoa em Bolsonaro é sua sinceridade de tornar público o modo de pensar, sentir e governar de toda uma classe social e seus prepostos de “direita” e “esquerda”. Assim, por exemplo:

• Graças a Bolsonaro um coronel liberal como Ciro Gomes agora pode se fantasiar de “esquerdista” e até reivindicar um “antifascismo”; posar de pacifista para melhor esconder que o miserável plano Real foi uma das suas invenções – junto a Fernando Henrique, Mallan, Edmar Bacha, Gustavo Franco, Ricúpero -, que pavimentaram o caminho para o governo PSDB, promovendo desemprego e ataques à classe trabalhadora. Graças a Bolsonaro também Ciro pode melhor esconder o brutal legado de pistolagem e truculência policial do seu governo – e de sua família – no Ceará, a Síria brasileira. Com Bolsonaro na disputa, Ciro, um tucano prático pode se dar ao luxo de falar como um petista;

• Graças a Bolsonaro um criminoso como Geraldo Alckmin, esse velho ladrão da Sabesp (já nos governos Covas), eterno amigo do PCC (e filiado ao Opus Dei), assassino de sem-teto, que fez correr rios de sangue nas ocupações do Paranapanema e no Pinheirinho, que deu carta branca aos grupos de extermínio (legais e ilegais, do Baep ao “Tático Norte”) em 2006,2010 e 2012-14, que faz funcionários públicos passarem fome há quase 20 anos e manda demitir, espancar e atirar em professores da rede estadual, que encheu as cadeias de manifestantes em 2013 e usou a máquina do governo do Estado para financiar mobilizações pró-golpe de estado em 2016, que rouba comida das escolas, faz faltar água no interior de São Paulo e desvia dinheiro para máfia do metrô/CPTM, além das mega-empreiteiras da Lava- Jato...agora pode aparecer como “promotor da paz e da tolerância”, “gestor qualificado”, “defensor da diversidade”;

• Graças a Bolsonaro, um torturador de camelôs e destruidor de favelas como Fernando Haddad, agora veste a fantasia do “herói antifascista”, “inimigo de todo ódio”. Bolsonaro também o presenteou com a máscara de paladino da “inclusão social”. Conhecido em 2013 como “Fernando Malddad”, pintava São Paulo com ciclopistas de “mobilidade”, e aumentava violentamente as passagens de ônibus, enviando a Guarda Civil (com a Polícia Militar de Alckmin) para estraçalhar manifestantes, atirar contra multidões – cegando e mutilando. Foi o banho de sangue de Haddad na cidade de SP um dos fatos geradores da rebelião de 2013. Foi Haddad quem invocou irresistíveis necessidades capitalistas para impor a imobilidade urbana, assumindo em público junto a Alckmin que só se houvesse “um mágico” na prefeitura reduziria as tarifas. Foi Haddad o cúmplice dos incêndios na favela do Moinho e de todas as destruições em favelas paulistanas em 2013-2016, mostrando seu humanitarismo petista ao mandar seus esbirros e capangas agredirem mulheres, crianças, idosos desabrigados protestando contra a perda de suas moradias. Só o fato de Haddad representar Lula/Dilma , ou seja, o exército nas favelas (intervenção militar!!!), as UPPs nos morros matando centenas de Amarildos, a aceleração do genocídio contra trabalhadores rurais e indígenas, a eliminação de opositores entre 2013-2014 e o estado de sítio para ajudar a Copa da Dilma, os ataques ao funcionalismo e aos aposentados, a alta do custo de vida, a perseguição/prisão dos controladores aéreos - em nome da hierarquia militar, esse tesouro bolsonarista, que o PT mais que qualquer direita soube tão bem impor em 2007. É o Haddad sorridente enquanto mata e simpático quando rouba, inimigo jurado do socialismo, anticomunista assumido – como qualquer neoliberal dos anos 90, apostou no “Fim da História” e na “falta de futuro do socialismo” (cf. sua tese “O sistema soviético: Relato de uma polêmica”, 1992)...que se pinta de avesso de Bolsonaro quando só é a sua imagem refletida num espelho avermelhado. Haddad é tão idêntico a Bolsonaro que sua candidata a vice, Manuela D’Ávila, representa os latifundiários, coronéis e caudilhos do sul do país, - que têm outra porta-voz, Ana Amélia, a vice de Alckmin (Bolsonaro não precisa de uma vice latifundiária, todo o latifúndio o apoia nos bastidores). A brutalidade direta e amadora de Bolsonaro deu ao carniceiro Haddad meios de retocar o marketing demagógico do PT e fazer o remix de velhas promessas antes desacreditadas;

• É graças a Bolsonaro que um delator de grevistas, colaborador da polícia e do Estado como Guilherme Boulos pode fazer de conta que é “socalista”. Boulos é o outro braço do petismo patrocinando os linchamentos e a onda repressiva de 2014 (não esquecer os presos da Copa!!!). O ódio Bolsonarista e sua ênfase na repressão fazem esquecer que foi a ordem de Boulos para que o seu MTST desistisse de ocupações em São Paulo e evitasse participação em greves e confrontos com o Estado durante toda a Copa do Mundo que tornaram possíveis os massacres e ataques a opositores, o Estado de Sítio nas ruas - acompanhado pelo crescimento da direita por toda parte.Nesse sentido, Boulos e Bolsonaro são dois rostos representando a mesma repressão à classe trabalhadora, o primeiro imobilizou a classe trabalhadora e isolou seus setores combativos para que a repressão defendida pelo segundo pudesse ser eficaz. Boulos e Bolsonaro, não por acaso, representam o terrorismo de Estado que esmagou a classe trabalhadora no Brasil a partir do final de 2013. E sem nenhuma coincidência, dividem o mesmo palco de concorrência eleitoreira. Por detrás de Boulos está o PSOL, o partido da continuidade petista com o vocabulário “socialista”, que o PT descartou quando quis mostrar ao capital brasileiro/internacional que finalmente “amadureceu” e “acordou” para a realidade administrativa do Estado burguês, o que implicava descartar o palavreado de superficialidade radical que o PSOL mantém como chamariz e aliciamento para os setores da classe trabalhadora em processo de ruptura com o sistema. É o PSOL de Marcelo Freixo e colaboradores como Ignácio Cano, que aplaudem a multiplicação das UPPs nos morros cariocas, que pediram “UPP já” entre 2010 e 2014, as mesmas UPPs onde favelados são torturados até a morte. É das forças do PSOL e de Freixo que brotam as propostas de “desmilitarização da polícia”, que nada dizem sobre o rastro de mortos por policiais à paisana, ou pela Polícia Civil - braço armado do jogo do bicho, da agiotagem e guarda-costas de lideranças do narcotráfico. É o PSOL de Boulos/Freixo que pede “investimento em inteligência” para solucionar o “problema da segurança pública”, medida também defendida por Bolsonaro, que significa entupir o país com caguetas, informantes e arapongas no melhor estilo das infiltrações e grampos telefônicos da Lava-Jato, que com certeza não destruirão o narcotráfico, mas serão utilíssimos à desarticulação de movimentos contestadores. A repressão preventiva dos órgãos de inteligência mata silenciosamente, é eficaz e menos impopular para as autoridades comparada ao ataque à luz do dia promovido por forças uniformizadas. Boulos fala pelo PSOL de Gianazzi, que afirma que os PMs de São Paulo são “vítimas” do sistema, exatamente como já o disseram outrora Erasmo Dias, Conte Lopes e Sivuca, amigos de Bolsonaro! Boulos é o PSOL de Ivan Valente que foi ao Pinheirinho induzir os ocupantes a não resistirem e por isso, facilitou o massacre que a PM de Alckmin realizou logo depois. Boulos é o anticomunismo do PSOL que substitui o protagonismo universalizante e horizontal da classe trabalhadora pelo das “identidades” (comunitárias, gênero, etnia, nacionalidade, etc.), igual Bolsonaro com seu identitarismo da “família tradicional”, da militância masculinista e do fanatismo sanguinário pentecostal – o identitarismo é o “socialismo” dos otários. É graças a Bolsonaro que um fiador de prisões, torturas e assassinatos como Boulos agora pode brincar de “defensor politicamente correto dos Direitos Humanos”, de “porta-voz de todas as vítimas”;

• Bolsonaro faz o banqueiro Meirelles, esse gênio do desemprego responsável pessoalmente pelo desemprego e pelos 28 milhões de desempregados do governo Temer, pela política de reformas e medidas contra a classe trabalhadora já iniciada pelo governo Lula, de cuja participação ele tanto se orgulha... parecer “economicamente mais saudável” que seus concorrentes, não só por falar a linguagem dos interesses norte-americanos e dos grandes especuladores/financistas internacionais (que falam através da Veja, Folha e Estado de S.Paulo e imprensa majoritária), mas porque faz o real analfabetismo de Bolsonaro em assuntos econômicos e os inacreditáveis desacertos com seu próprio economista de campanha (Paulo Guedes, que no fundo quer o mesmo que Meirelles ou Alckmin), converterem pontos a seu favor. O mago e feiticeiro da crise, Meirelles que é o Domingo Cavallo brasileiro, o responsável pelo processo de argentinização econômica do país, recebe de Bolsonaro o poder de parecer um educado e seguro “gestor eficiente”, melhor escondendo que enquanto Bolsonaro mata e quer matar com armas de fogo, Meirelles representa o genocídio através de medidas financeiras: mata com reformas e medidas econômicas, que tudo representam de genocídio à classe trabalhadora, seja do aumento da mortalidade infantil e mortes causadas pela desnutrição, até a espiral da criminalidade nas ruas reforçada pela penúria e pela crise econômica. O genocida Meirelles, com muito mais mortes nas costas que Bolsonaro, frente a ele tem o cínico ar de um “técnico despreocupado”, um “gestor que faz a sua parte” no melhor estilo de um Eichmann, ou de um Poncio Pilatos. A fome canibal de Bolsonaro por mortes e punitivismo absorve e invisibiliza as culpas de Meirelles, o maior entre todos os assassinos;

• É graças a Bolsonaro e sua explícita conexão com interesses norte-americanos e japoneses que Marina Silva, essa representante da colonização da Amazônia pelos EUA e de ONGs ligadas ao governo inglês, pode jogar o jogo da patriótica defensora de “interesses nacionais”. Enquanto defende o combate ao “machismo” frente a Bolsonaro, a Natura, empresa de Guilherme Leal que banca as campanhas de Marina Silva, conta de modo intensivo e extensivo com o trabalho escravo. É graças à ligação de Bolsonaro com a indústria do armamento e com o militarismo que Marina Silva veste a carapuça da “candidata independente”, quando seu programa é o mesmo de Meirelles, Alckmin, Amoedo e Álvaro Dias...ou seja o programa de Michel Temer, ao mesmo tempo que tenta deixar na sombra as amarras e a ligação umbilical de Marina com a família Setúbal e com o trust Itaú/Unibanco – ou seja, com o capital bancário que se alimenta da escalada do endividamento de milhões de famílias em todo o país. Bolsonaro ajuda essa personagem sazonal, candidata improvisada de ocasião, o tucanismo com selo de qualidade ambiental cada vez que advoga agressivamente os latifundiários e desmatadores ou quando protagoniza junto a ela patéticas rixas morais em debates encenados pela televisão;

• Bolsonaro é ainda positivo para seus próprios apoiadores paralelos e concorrentes. Assim, um xucro militante, um inacreditável imbecil religioso como Daciolo consegue valer alguma coisa eleitoralmente ao caminhar na sombra de Bolsonaro e ser sua versão microscópica e ainda mais ignorante. Esse desgarrado do PSOL que também saiu dos meios militares onde também liderou insubordinação grevista, é fruto e agente do caldo cultural Bolsonarista: sua limitada demência conspirológica acaba onde começa o político desviador de verbas, ladrão profissional e explorador do rebanho evangélico, o qual tenta usar como escada ao poder. Embora mal tenha pontuado 1% nas pesquisas, a imprensa brasileira tenta a todo custo promovê-lo, convidando-o para os debates e traindo seus próprios critérios de banir/censurar candidatos que tenham chegado ao máximo de 1% nas encomendadas pesquisas de indução de voto/promoção de candidatos. É graças a ascensão do Bolsonarismo que Daciolo consegue se esforçar para fazer o próprio nome como caricatura de uma figura já caricatural...Daciolo também dá a oportunidade ao status quo de Temer e às candidaturas tucano-centristas de aparecer como alguém com chance de rifar os votos de Bolsonaro e dividir seu público, usando contra todos os candidatos incluindo seu próprio inspirador, o mesmo discurso paranoico que antes parecia exclusivo de Bolsonaro. Isso explica porque a mídia o tem chamado para os “debates” televisivos. Bolsonaro assim é útil até mesmo a imitadores de menor destaque, que na posição de concorrentes sonham em ser como ele e com ele podem se dar ao luxo de disputar em frente às câmeras sobre quem é mais patriota, ignorante ou fanático religioso. Com tamanha assistência do Bolsonarismo para se promover, Daciolo consegue ser o Boulos de Bolsonaro;

• Quanto aos demais candidatos que são insignificantes e minúsculos, eles recompensam o Bolsonarismo e por ele são ajudados em dois momentos: Bolsonaro é o sucesso do método que seguem, e representa uma oportunidade de crescimento. As candidaturas minúsculas são úteis para pilotar “legendas de aluguel” (todos os partidos são de aluguel, compra e venda, mas nos “nanicos”, certas transações e facilidades a carreiristas iniciantes são mais favoráveis). Legendas propícias para montar alianças parlamentares e comprar apoio em chapas/governos/legislativos estaduais conforme seus partidos recebem votos em massa, quando se trata de “voto de protesto”, ou ao selecionarem palhaços e laranjas, por mais pobretões e jecas que aparentem ser. O sistema precisa desses personagens para dar a impressão que a eleição é um processo tão “igualitário” que até o mais tosco candidato pode concorrer, e o comediante mais folclórico e ignorante pode ter seu espaço de participação dentro da tirania democrática. São a desculpa-padrão para que não se anule o voto ou para que não se boicote as eleições, afinal é possível ter o “voto de protesto” ou “voto bem-humorado” em algum desses trambiqueiros. Atores caricaturais, que participam da disputa por serem de testas-de-ferro a personagens muito maiores – que estarão na sombra sendo eleitos pelos votos que deles sobrarem -, ignorantes disso ou não, todos têm seu maior exemplo em Bolsonaro. Bolsonaro é o candidato mequetrefe que deu certo, e o PSL o partido “nanico” que finalmente alcançou projeção. Novamente, o que Bolsonaro chama de “velha política” – composta também pelas chamadas “legendas de aluguel” - ele mesmo volta a representar por meio do exemplo da sua própria candidatura. Na disputa presidencial os demais candidatos que permaneceram na insignificância, pegam carona na sensação ódio/simpatia por Bolsonaro e com ela tentam morder/conseguir alguma coisa com a qual possam lucrar. Do PSTU a Álvaro Dias, Bolsonaro permite que todos os candidatos/candidaturas tenham algo a dizer e pareçam “interessantes” na medida em que estejam próximos ou distantes dele, bússola de todas as demagogias.

Nota: por que nos relatos apresentados sobre o benefício de Bolsonaro a outros candidatos, há maiores detalhes a respeito de algumas candidaturas, métodos retórico-estratégicos e forças políticas do que sobre outras? Por três razões: 1) Pelo desconhecimento geral a respeito dos crimes de alguns gestores e concorrentes de Bolsonaro (ex: Meirelles e Daciolo) que não negam abertamente a linha Bolsonaro, e tampouco Bolsonaro os renega (basta lembrar o apoio integral de Bolsonaro ao golpe de 2016, ao governo Temer e às reformas Temer/Meirelles), mas apresentam-se como seus “alternativos”, 2) Expor e denunciar abertamente a trajetória da “esquerda” do capital lucrando com o antifascismo eleitoreiro que Bolsonaro lhe oferece, especialmente o eixo Haddad/Boulos, que em políticas de miséria e projetos repressivos contra a classe trabalhadora é tão dedicado quanto Bolsonaro, inclusive tornando possíveis o ascenso direitista e o Bolsonarismo; 3) Expor a transparência com a qual as “pequenas candidaturas” dos “pequenos partidos” lucram com o fenômeno Bolsonaro e o quanto ele é a expressão mais desenvolvida das mesmas, que varejam o que o grande partidarismo eleitoreiro de massas faz no atacado.

Há os benefícios particulares aos candidatos e ao tráfico de demagogia que faz Bolsonaro ser o benfeitor de todos os lados: aumenta os votos de veteranos reacionários e corruptos quase esquecidos; que agora pegam carona em sua popularidade defendendo “segurança” e “moralismo”...enquanto faz o jogo do campo adversário, que tendo em Bolsonaro a figura do “inimigo ideal”, contra quem é de razoável ser contrário, ainda mais se isso é eleitoralmente lucrativo quando se pode ostentar o selo antifascista de qualidade.

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De fato, seja a favor ou contra Bolsonaro é o melhor cabo eleitoral que em décadas o capitalismo brasileiro foi capaz de inventar para submeter as massas ao Estado. A devoção cega e carismática de seus seguidores e eleitores é capaz de eleger qualquer um que diga apoiá-lo ou mais ainda, ter seu apoio. Para esse público e os vários fascistas e candidatos a genocidas que saem do armário, quanto mais crimes são apontados contra Bolsonaro, mais denúncias a respeito dele aparecem e mais acusações de racismo, discriminação de gênero e violações de direitos aparecerem, mais ele será aplaudido. Trata-se de um setor que abertamente odeia o proletariado e quer a solução final contra a parte da classe trabalhadora que não se submete – de “criminosos comuns” a contestadores sociais de qualquer tipo.

Que esse setor tenha apoiadores dentro do proletariado, isso se deve ao discurso “inclusivo”, anti-discriminação e contra ditaduras militares ter sido monopolizado pelo petismo, que por 14 anos impôs brutal ditadura ao proletariado e que em vários momentos foi mais longe que a direita na guerra social contra a classe trabalhadora (tentativa de volta da CPMF, aumento dos assassinatos no campo a mando dos “companheiros” latifundiários que apoiaram Lula/ Dilma, militarização das favelas...2007,2009-12, 2014...). Desses “defensores dos oprimidos” que tanto falaram em “direitos humanos” com sangue na boca, a classe trabalhadora quer distância, como não só a greve dos caminhoneiros demonstrou, mas o colossal rechaço do petismo nas eleições de 2016 deixou claro. Entretanto, os setores retardatários da classe trabalhadora identificaram à pregação da direita a negação da ditadura burguesa, a partir do momento que tal pregação afronta – de um ponto de vista elitista e abertamente ditatorial – o que o petismo negava no discurso, mas na prática sempre fez. A falsa equivalência entre o discurso supostamente inclusivo e igualitário e a prática, observando em referências à classe trabalhadora ou ao igualitarismo a propaganda de um governo sanguinário e punitivo, gangrenado pela explosão da crise econômica, que veio 6 anos atrasada pela política de crédito do petismo, será o fator a direita utilizará para fazer a imaginária e insana associação do capitalismo petista com comunismo, tirania, miséria e violência. A tirania a miséria e a violência são a própria ordem capitalista, que administrada pelo PT ganhou ares de “igualitária” e “inclusiva”. Vendo na negação somente do discurso petista, e de elementos da sua gestão a negação dos resultados da ditadura burguesa e a superação da crise econômica, parte da classe trabalhadora foi cooptada em massa para o projeto bolsonarista, que promete o mesmo “paraíso” que Lula passou 20 anos prometendo, mas agora com um capitalismo sincero e sem vergonha de genocídio.

O que trabalhadores(as) iludidos(as) com o Bolsonarismo não percebem é a continuidade da ditadura capitalista, da miséria, da sangria petista, agora passada para mãos fascistas ou de governos ideologicamente direitistas, que não só não irão defende-los do terrorismo de Estado, mas que assumem à luz do dia as virtudes do egoísmo, do racismo ou do extermínio generalizado de opositores e de pessoas “não lucrativas”. A substituição de demagogos crueis por sociopatas profissionais não muda a ordem das coisas, e tomar partido pelos últimos é entregar o próprio pescoço à guilhotina. A verdade óbvia dessa percepção se torna invisível aos olhos bolsonaristas de muitos(as) trabalhadores(as) quando observam a gestão petista do capitalismo e todas as tragédias que impôs como fazendo parte de um universo “socialista”, “comunista” contra cuja efetivação o PT foi o grande opositor e desse inconsciente anticapitalismo de raiz (manifesto em várias ocasiões: 2007,2011,2013,2014,2018...), projetam a impotência da própria consciência e organização no paternal discurso de Bolsonaro e assemelhados, que promete livrá-los da brutalidade capitalista...com mais brutalidade estatal e avareza empresarial roendo-lhes até os ossos.

Os instintos que animam o Bolsonarismo em parte do proletariado são anticapitalistas, mas instintos ignorantes de si mesmos, são projetados para uma suposta era dourada de fascismo e prosperidade que nunca existiu, e vendo a negação do discurso hipócrita do petismo como “revolucionária” (sobre inclusão, igualdade, etc.), supõe que o assumir de posições simétricas nos espectros moral e político (masculinismo, militarismo, neoliberalismo, fundamentalismo religioso, etc.), seria negar o capitalismo ou suas atrocidades diárias na vida proletária.

De ponta a ponta, o triunfo do Bolsonarismo é o triunfo do reformismo: a “esquerda” do capital sonha com um capitalismo beneficente através de um governo filantrópico...desde que haja democracia, cotas, políticas identitárias, incentivos fiscais, crédito barato, programas sociais e cestas básicas, a revolução não é tão necessária assim ou pode ser adiada para o nunca mais. A “direita”, sua parceira no esmagamento do proletariado sonha com o capitalismo “limpo” de apetrechos “esquerdistas”: estado “mínimo”, todo poder aos lobistas, privatizações irrestritas, isenções de impostos aos mais ricos, militarização da pobreza e torturas contra contestadores sociais. Em ambos os lados, a defesa do capital é indiscutível: os delírios com a abolição do “mau capitalismo”, por mão governante e caneta presidencial/legislativa, - seja pelo “capitalismo solidário” prometendo o reino da riqueza através da renda mínima, seja pelo “capitalismo canibal”, trazido à sua “pureza original” sem “erros de interpretação e de gestão”, que tornaria o mundo um paraíso...de piratas e gângsteres através do cada um por si e contra todos. O reformismo – de “direita” ou de “esquerda” - jamais formula a questão da destruição do capital e do Estado, mas ou em modernizá-los ou em restaurar seus ideais (e nunca reais), “formatos originais”, em democratizá-los ou torna-los mais “puros”, graças ao que o capitalismo será o comunismo que deu certo ou pelo menos o admirável mundo novo sem escravos reclamando. Ao empobrecimento do debate no interior do proletariado sobre os rumos a seguir na guerra social, à redução das respostas possíveis a essas duas miseráveis e catastróficas alternativas da mesma coisa o Bolsonarismo corresponde e tem correspondido. Ele é o elemento que torna “interessante” se descabelar e se bater até a exaustão quanto à necessidade de medidas que o Estado deveria tomar (pena de morte, aborto, porte de armas ou posse de drogas), desde que o Estado seja sempre o protagonista desses estúpidos debates que em todos os lados promove a legitimidade e a razoabilidade da ordem capitalista. Bolsonaro faz a contradição e o debate saírem da ordem da subversão e do descontrole estatal para se tornarem administráveis.

A truculência caricatural e desequilibrada, incapaz de raciocinar com sentido até o fim sem o apelo à eliminação dos contrários (mesmo que situados dentro do espectro ideológico burguês), o elogio a todos os preconceitos ancestrais e tradições excludentes é a melhor propaganda política que Bolsonaro faz a seus amigos de “esquerda”. E nesse caso, não se trata só do discurso, mas do próprio personagem. A “esquerda do capital” não só tem o inimigo ideal, a quem pode transferir o monopólio da violência, mas por ser Bolsonaro capaz de concentrar em uma única pessoa todas as marcas da vilania...ele pode apagar da “esquerda” o histórico dos seus crimes de Estado nos 14 anos de petismo e fazê-la destilar antifascismo...de preferência legalista e identitário. O “#Ele não”, slogan atual de todos os demagogos e canalhas que se equivalem ou superam o próprio Bolsonaro com a vantagem tática de não explicitarem seus objetivos, trincheira atrás de qual se enfileiraram quase toda a burguesia e aliados (da Rede Globo ao MST, de Meirelles a Boulos!), fomenta e fortalece o velho imaginário messiânico eleitoreiro, que tanto alimenta ao mesmo tempo as suas versões de “esquerda” (antifascismo) e de “direita” (anticorrupção): o problema da opressão estatal e da ordem burguesa virou um problema de pessoas, um problema dependente da pessoa “certa” ou “errada” a ocupar o trono ou vencer a eleição!

Esse ignominioso modo de pensar, de um eleitoralismo primarista e de um foco no personalismo gestor ao qual se atribui poderes que nem os profetas das religiões ousariam ter... é o triunfo do Bolsonarismo. Quando se escrever a história futura da fase da ditadura capitalista no Brasil correspondente ao início do século 21, que não se esqueça a quantidade de préstimos, prendas, favores e utilidades que um único personagem, e uma única ideologia foram capaz de ofertar ao sistema em tão pouco tempo. A classe capitalista no Brasil, em sério desacordo interno e rachada desde 2014, tem agora um anti-herói, capaz de criar um consenso burguês não só em favor da ordem e da legalidade do Estado democrático, mas de impulsionar a uma farsesca reencenação das “Diretas já” e do “Fora Collor” como momentos de reconciliação da classe dominante com ela mesma e reorganização do projeto capitalista (“união nacional”, “fim da polarização”, suplicam em coro a Veja, o PT, o PSOL e até o MBL!), através do “heroico e histórico enfrentamento” teatral contra um “odiado inimigo comum”, por ela gestado, criado e alimentado. O monstro do momento será o fiador de um novo pacto da dominação, pela força quando estiver no poder, ou como “perigo enfim superado, mas sempre à espreita” quando estiver fora dele. A luta contra Bolsonaro aliando todas as demais facções da burguesia será o grande exorcismo e absolvição pelos pecados políticos e blasfêmias ideológicas de seus adversários, o habeas-corpus político a quem quiser continuar fazendo parte da trama democrática...ao mesmo tempo totem e cordeiro consagrado que carregará em si as culpas de todos os outros para que o jogo do capitalismo volte a se fazer sem atritos, depois de submetida a classe trabalhadora a esse desgraçado espetáculo sem futuro. Isso explica por que a facada em Bolsonaro fez as bolsas de valores subirem e levou a “The Economist”, voz dos investidores, a dedicar-lhe um editorial detrator. Assim, a “marcha das mulheres contra Bolsonaro” (que o feminismo imperialista copia da marcha das mulheres contra Trump, às vésperas da eleição do mesmo), o “espetáculo da democracia” que será uma possível vitória do anti-Bolsonarismo nas eleições e eventos assemelhados, não são a luta da classe trabalhadora contra o fascismo, mas o festivo e popular jubileu do Estado, a procissão santificadora da democracia capitalista, celebrada pelas multidões com foliões, romeiros, gandulas e devotos em todos os lugares.

Não fosse Bolsonaro, tal “consenso antifascista” reunindo inimigos ferozes da classe trabalhadora, de todas as cores e posições...seria impossível.

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No resumo de tudo, é possível ver que além da longa ficha de serviços prestados em benefício da ordem burguesa e de todas as facções do capitalismo, em todos os partidos políticos, Bolsonaro permite ainda outras oportunidades de lucro que salvam o sistema contra a ofensiva dos(as) trabalhadores(as):

• A personalização da intolerância e da violência capitalista que passam a ser “qualidade” ou “defeito” individual (conforme quem apoia ou combate) de um único personagem;

• Premia/retroalimenta o identitarismo: suas posturas abertamente racistas, intolerantes contra mulheres e homossexuais em geral fortalecem a defesa interclassista do gueto das “identidades” contra a união geral da classe trabalhadora;

• Cega quanto à repressão descentralizada, molecular, cotidiana, municipalizada e por isso mesmo menos visível e mais sanguinária...que o sistema pratica todos os dias. Colocando na frente os poderes absolutos de quem ocupa a cabine de comando, dá a entender que a violência capitalista (seja para matar proletários ou em prol da “segurança pública”) depende somente de um comando central, o que faz ignorar os comandos secundários e a democrática brutalidade genocida do capital;

• Da parte de seus apoiadores e seus opositores, Bolsonaro é o motivo predileto para a exaltação de todos os sagrados valores do capitalismo e do Estado: patriotismo, legalidade, religiosidade servil, cidadania, ainda que alguns apareçam como antivalores frente a outros, o Estado é o grande vencedor;

• Como já exposto, e é necessário repetir: Bolsonaro torna viáveis e lucrativas todas as alianças eleitorais, a favor ou contra, isso é ainda pior em eleições estaduais, onde tais pactos estão sendo celebrados com menos escrúpulos e também menor visibilidade que na eleição nacional...Bolsonaro torna sólidos e coerentes os currais eleitorais, sobretudo pelo alistamento ideológico (a favor ou contra) que sua figura promove;

• Banalização do antifascismo: seguindo a lógica do “Ele não” (repetição do “Tudo menos Sarkozy”, nas eleições francesas de 2007), como já exposto, aliados históricos de ditaduras como a TV Globo agora podem se dizer “antifascistas”;

• Nivelamento da política em dois campos, com os benefícios que isso traz a todos os envolvidos: da polarização entre petismo/ antipetismo, que já era uma horrenda polarização contra a classe trabalhadora, que causou danosos efeitos em 2013-2016, passou-se à polarização Bolsonarismo/antibolsonarismo, atribuindo-se um valor positivo ou negativo a um dos dois lados conforme a filiação ideológica de quem vê. Desnecessário observar que seja em nome da “ameaça fascista” ou da “ameaça esquerdista” (representada segundo o Bolsonarismo por todo o restante, exceção de Daciolo), o destrutivo recrutamento da classe trabalhadora em um dos lados já é sua derrota;

• Intensificação do patrulhamento ideológico e da repressão, especialmente nos meios virtuais: como já era costume do feminismo, esse professor dos grupos bolsonaristas, os diversos meios de ataque a individualidades e grupos discordantes (strike, derrubada de sites, denúncias, rastreamento de indivíduos para serem intimidados em seus locais de moradia/trabalho, repasse de informações ao Estado, infiltração, trashing, propaganda suja, robôs virtais, etc.) não só tiveram um agravamento e uma proliferação, guiados por organizações financiadas por partidos políticos e seus financiadores desde o início da campanha eleitoral como ampliaram o impacto dos seus danos aos poucos meios militantes proletários nas últimas semanas;

• Judicialização: seja da parte dos defensores da bandeira “Lula Livre”, seja da parte dos que repudiaram o ataque a Bolsonaro, até mesmo nos debates eleitorais, ou ainda contra “apologias ao crime”, “propaganda de preconceito”, “propaganda de ódio”, “difamação” cruzadas e jihad contra as chamadas “fake news” (nome que o Estado e o monopólio da imprensa dão a todas as notícias e canais de comunicação não censurados e/ou controlados por eles...importante observar que a expressão foi inventada por Trump nas eleições de 2016 nos EUA...para se referir à parte da imprensa que o criticava)...é indiscutível o apelo e a delegação de arbitragem ao poder judiciário, senhor da situação no Brasil e a quem o governo do pais foi entregue em 2016 (vive-se hoje a ditadura dos tribunais). A judicialização que marca a presente campanha e seus momentos anteriores (o país está em campanha eleitoral permanente desde 2014), só mostram o quanto o judiciário está indiscutível em seu lugar absolutista de poder acima de todos os poderes do Estado, ainda mais em uma época que ele abandonou o apego à letra da própria lei, substituída pelos arranjos sentenciais para defender os interesses dos patrões com a mesma flexibilidade que contratos são feitos e desfeitos, com a mesma rapidez das movimentações do mercado (doutrina e praxe cujos paladinos são a escola de Curitiba e o STF, baseados em outra inovação petista que supostamente tornaria o direito “acessível às classes populares”: o direito alternativo/jusalternativismo);

• Militarização da política: depois de Bolsonaro, a começar pelo vice de sua chapa, houve uma proliferação de militares e policiais aparecendo como candidatos em vários cargos. Trata-se da apropriação democrática do Estado pelos segmentos diretamente ligados à repressão, que sem precisar de um golpe de Estado, aumentarão ainda mais as bancadas armamentistas e regressistas no quadro das casas legislativas. Tais bancadas têm e terão importante papel no futuro para o estabelecimento de alianças e aprovação de legislação ainda mais brutal contra a classe trabalhadora, além de ser um importante personagem nas barganhas e tratos parlamentares para a aprovação de leis, embora o outro lado de tal militarização que é a judicialização já tenha começado com a “esquerda” do capital e os identitários (cf. os apelos feministas para legislações mais repressivas e mais polícia na rua a pretexto da “cultura do estupro”);

• Terceirização do antipetismo: os vários partidos que contribuíram com o golpe de Estado de 2016 (PMDB e PSDB à frente de todos os outros), podem se permitir adaptar algumas políticas do petismo como o Bolsa-Família, podem também desenvolver programas rigidamente liberais de reformas e medidas de miséria sem parecerem malufistas ou voltados somente a serem os contrários do PT, pois tal papel acabou monopolizado por Bolsonaro. Com isso podem tentar parecer “interessantes” aos olhos do eleitorado e tanto quanto o PT e similares (Ciro), podem fazer a mescla de “neoliberalismo assistencial”, com discursos e práticas próprios e do petismo, - o que os valoriza aos olhos do capital nacional e internacional como “politicamente flexíveis” e mesmo que dotados de programas repressivos e regressistas, isso os beneficiaria mostrando que suas propostas não se reduzem ao antipetismo, mas podem ser também “inclusivas”;

• Autodestruição/crise na direita tradicional e fortalecimento do PT frente a seus rivais: além de explorar o “antifascismo” para se fortalecer na própria clientela, o PT é novamente beneficiado por Bolsonaro quando a ascensão do Bolsonarismo monopoliza e concentra a maior parte do eleitorado de direita, esvaziando e enfraquecendo partidos como PSDB e DEM, adversários eleitorais históricos do PT. O fenômeno Bolsonaro nesse sentido é uma dura derrota para o PSDB, pois tira-o do páreo na disputa contra o petismo e praticamente isola todas as demais facções de direita, pois o discurso agressivo do Bolsonarismo também investe na acusação de “esquerdismo” a todos os seus adversários, localizando entre eles os setores tradicionais da direita que antes compartilhavam o poder com o PT e eram seus maiores desafiadores eleitorais. Todo o caminho que levou às eleições de 2018 foi marcado pela disputa dentro da direita sobre quem seria o anti-Lula. Bolsonaro preencheu essa vaga, ao custo de sacrificar todas as demais facções tradicionais da direita, que agora se vêem atipicamente marginalizadas e colocadas fora de combate. Se o antipetismo bolsonarista pode render votos imediatos a Bolsonaro, e inicialmente fortalece-lo, o desgaste e a futura falência do Bolsonarismo (que independente de vencer as eleições, tende ao desastre) serão ainda piores para a direita e mais favoráveis ao predomínio petista – todas as outras alternativas dentro da direita foram devoradas pelo Bolsonarismo em ascensão e o futuro e inexorável fracasso do mesmo fará literalmente a direita ficar sem cabeça, o que é o melhor dos mundos para o PT. O fracasso do Bolsonarismo também arrastará toda a direita consigo e terá sobre a direita um efeito ainda mais desmoralizador que a decadência do petismo no governo Dilma. Para não falar da inevitável e incurável associação da direita com a truculência de Bolsonaro, um efeito irreversível que agora pode parecer popular e propício à obtenção de votos, mas a longo prazo arruína ideologicamente a direita em seu conjunto. Nem se Bolsonaro e o PT tivessem combinado entre si, esse desmanche do tucanismo estaria dando tão lucrativos efeitos a uma possível hegemonia eleitoral do PT a médio prazo. Uma cabeça mais conspiracionista poderia com razão imaginar que Bolsonaro seria um agente ou produto do PT enviado para arruinar toda a direita e o tucanismo, pois na prática, é o que o Bolsonarismo está fazendo;

• Ampliação do respaldo ao Estado e combate à abstenção e ao boicote eleitoral através do messianismo político: Bolsonaro é um Lula de direita, seu discurso messiânico quanto ao que poderia fazer depois de eleito é idêntico ao discurso que por 20 anos o PT levou na “oposição” prometendo o paraíso caso Lula fosse presidente. Tal aspecto politicamente religioso é forte entre seus seguidores e indiscutível entre os mesmos, assim como a fanática fé no petismo da parte da principal concorrência. As pesquisas de indução ao voto/manipulação do eleitorado mostram de fato uma rejeição nas tendências a votos nulos/brancos/abstenção quanto mais se investe na polarização PT/Bolsonarismo, nos apelos ao “voto útil” e no duelo de um perigo contra o outro, perigo que se mostra “salvífico” frente ao perigo rival. Outras candidaturas que apelam ao risco de “venezuelização” do país tentam aparecer como uma “terceira opção” que salvaria de ambas as ameaças (é a posição da imprensa escrita: Veja, Folha, etc...quando de fato, se trata da continuidade do governo Temer).Em uma eleição onde há uma forte possibilidade de ocorrência do maior boicote da história do país, onde brancos/nulos/abstenções aparecem valendo de 1/3 a quase metade do eleitorado, o recurso ao maniqueísmo, ao “nós contra eles”, ao “bem contra o mal”, tão antigo quanto o Estado e o poder garante a submissão coletiva ao Estado e a adesão ao mesmo no ato de votar.

Bolsonaro é assim a garantia da boa saúde do capitalismo e do seu cão de guarda, o Estado brasileiro. Imbuído do papel de “herói”, de “salvador” que finalmente consertará a moral e a política e assim consegue iludir carismaticamente seus seguidores, ou visto como a personalização da ameaça fascista, Bolsonaro é o personagem que representa o lucro de todos os envolvidos no mercado eleitoral. Ainda mais quando sua imagem de vilão e de perigo imediato a enfrentar é explorada como plataforma publicitária para elevar a preferência de todos os seus adversários, e como a justificativa ideal para todas as alianças, que lava os pecados e crimes de toda a política brasileira. O que mostra que Bolsonaro é o melhor boi de piranha que o capitalismo brasileiro atual pôde criar e o álibi de todos os crimes da democracia e do petismo contra a classe trabalhadora.

As perspectivas não são as mais animadoras e um cenário com o Bolsonarismo em destaque leva a três possibilidades-mestras:

1) Bolsonaro vence as eleições, e dado o viés repressivo de suas propostas, ancoradas no terrorismo de Estado, aprova a continuidade das reformas de Temer e todas aquelas que Temer ainda não aprovou graças ao desgaste do seu governo e ao levantamento do proletariado contra as mesmas. Reformas exigidas pelo capital internacional e pelo patronato brasileiro. Um governo abertamente terrorista é necessário para a aprovação de reformas desse tipo, que um congresso dominado pela direita (e essa é a possibilidade para 2018) facilmente aprovaria. Do mesmo modo que Collor, assim que a utilidade de Bolsonaro para o sistema tiver acabado na aprovação de tais reformas (“direitos sem emprego ou emprego sem direitos” como ele mesmo diz), ele será arremessado do poder, seja através da exploração de algum novo escândalo de corrupção ou até mesmo através de um novo golpe de estado envolvendo judiciário e/ou militares. Assim, como ocorreu no governo Temer, todos os demais partidos seriam inocentados pois o governo não era deles (que inclusive poderão convocar manifestações contra o mesmo), assim como Temer só chegou onde chegou com a condição não ser uma figura consensual e nem diretamente eleito (o fato de ter sido o vice de Dilma, fazia dele somente um suplente e não o mandatário diretamente eleito, e é mencionado todas as vezes que se tenta ocultar a participação do mesmo no golpe contra o governo do qual fazia parte);

2) Bolsonaro perde as eleições no segundo turno para uma frente ampla da qual todos farão parte, do PT ao PSDB/PMDB, repetindo a disputa entre Covas e Maluf em São Paulo, quando o PT declarou apoio ao PSDB, entregando-lhe o governo do estado. Essa frente ampla será responsável pela “reconciliação nacional” e logo, pela união dos interesses capitalistas em guerra no país desde 2014. Tal “união nacional” também dará legitimidade ao novo governante (segundo as pesquisas, Ciro ou Haddad) para não só manter as reformas de Temer como aprovar ataques ainda mais cruéis aos trabalhadores, justificados por partirem de um governo “antifascista”. Importante observar que esse governo de “esquerda” governará aliando-se a um Congresso e a governadores de direita, o que só seria mais um governo FHC liderado por “esquerdistas”;

3) Possibilidade de um golpe militar com o agravamento da crise: Bolsonaro poderia recorrer ao mesmo em caso de insubordinação social com as medidas de miséria que pretende implantar, ou ainda para garantir a “segurança pública” ou para amedrontar os rivais no campo da direita que lhe opusessem força em aliança com o petismo. Ou ainda, um governo de “esquerda”, dada a possibilidade do Bolsonarismo promover distúrbios ao não reconhecer o resultado eleitoral (a insistência de Bolsonaro na questão da fraude eleitoral fala mais alto nesse caso), a possibilidade de tal governo precisar quebrar a classe trabalhadora saindo do seu controle (além de se vingar dos adversários envolvidos no golpe de 2016), ou ainda um fenômeno mais significativo na disputa interna entre as facções do capitalismo: a soltura de Lula.

Em todos os casos temos um cenário difícil: agravamento da crise com a argentinização econômica do Brasil (iniciada em 2014), e possibilidade de o Estado brasileiro virar um estado de tipo turco (governo Erdogan) ou fujimorista – atualmente a tendência mais forte, independente de quem vença as eleições.

Parece tudo impossível para a classe trabalhadora: a fidelização eleitoral gera novos surtos de adesão ao Estado, a repressão e a piora das condições de vida se tornam crônicas, o reformismo, mesmo enfraquecido com o desgaste do petismo ainda consegue quebrar as lutas proletárias, a identificação do proletariado com o sistema através de três grandes inimigos (anticorrupção, antifascismo e identitarismo) parecem levar tudo para uma perspectiva de derrota, mas ainda assim há sinais de que nem tudo é “céu de brigadeiro e mar de almirante” para o sistema:

• A economia brasileira caminha para um novo cenário de falências e aprofundamento da crise já para 2019-2020 (o movimento da bolsa de valores desde o meio do ano torna isso claro), o que obrigará a burguesia e seus representantes a acelerarem a imposição de novas reformas e medidas de miséria (alta de impostos, combustíveis, inflação, etc.). Tal cenário que só vem se agravando nos últimos quatro anos levará a confrontos sociais (greves, rebeliões, etc.), que conforme o exemplo da greve dos caminhoneiros mostrou, poderão ser extremamente prejudiciais ao Estado;

• Mesmo com a polarização entre Petismo e Bolsonarismo, a tendência ao boicote eleitoral se mantém alta (para infelicidade de cabos eleitorais e comentaristas jornalísticos que a todo momento falam no “perigo do voto nulo”), o que mostra que parte considerável da classe trabalhadora se recusa a legitimar o Estado e seus representantes, o que é condição para a insubordinação social;

• A despeito do “antifascismo” ou da defesa da “segurança pública”...dos “cidadãos de bem”, “direita” e “esquerda” aplicarão mais terror contra a classe trabalhadora. Vários fatores poderiam contribuir com isso, mas basta citar somente um que é a guerra civil no submundo entre as facções do narcotráfico - que também é parte da guerra dentro da burguesia brasileira, cujo lado legalizado aparece na disputa entre partidos eleitoreiros (petismo e antipetismo), reproduzida nas sombras da ilegalidade na cruenta rixa CV/PCC. Esse terror não tem força milagrosa para manter a coesão social e pode gerar contra-ofensivas fora de controle como a rebelião de 2013, acionada diretamente pelos ataques da polícia contra manifestantes em São Paulo. Tudo que o sistema teme é um novo 2013, maior e mais profundo que o anterior. O sistema precisa do terror contra a classe trabalhadora, mas o próprio terror acaba se tornando uma arma voltada contra ele.

De todo o constatado, somente a resistência da classe trabalhadora contra as eleições, contra todas as ilusões reformistas (do antipetismo ao antifascismo) e mais ainda contra essa salvação do sistema que é o Bolsonarismo (messias e totem que redime e gera benefícios a todas as facções) dará condições para novas e maiores resistências contra o cenário que se desenha, que em todos os seus contornos aponta para marés sombrias, independente do capitão do navio.

Contra as eleições e contra o Estado: abstenção revolucionária!

Ação Direta!

Nem neoliberais, nem petismo, nem bolsonarismo, nem antifascismo!

Nem “Ele” nem os outros!

Iniciativa Revolução Universal, setembro de 2018.
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