Para uma estrategia anarcho-sindicalista em Africa

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Sifuna Zonke
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Jan 4 2008 19:40
Para uma estrategia anarcho-sindicalista em Africa

Para uma estrategia anarcho-sindicalista em Africa

por Jonathan (ZACF) tradução em português por Colectivo Luta Social

O presente artigo debruça-se sobre as possibilidades e oportunidades para espalhar as ideias anarquistas em África através da intervenção de anarquistas e anarco-sindicalistas de for a, pela construção de solidariedade no terreno e de apoio apara os sindicatos africanos e para outros movimentos dos trabalhadores e dos pobres.

Ele foca alguns factores que devem ser tidos em consideração quando se empreenda e algumas sugestões acerca do desenvolvimento de uma estratégia anarco-sindicalista para África.
Entre 28 de Abril e o 1º de Maio de 2007 cerca de 250 militantes dos cinco continentes reuniram-se em Paris, França, para a Conferência Sindicalista Internacional i07, na sequência das Conferências Sindicalistas de San Francisco UEA, de 1999 designada por i99 e da que foi realizada em Essen, Alemanha em 2002, designada i02.

Os objectivos dos encontros eram os de partilhar experiências, debater e iniciar a reconstrução de laços entre várias organizações e unir trabalhadores de diferentes países, para adequar os meios de informação, luta e acção, na organização da solidariedade internacional contra a exploração e domínio capitalistas. O fim de semana incluiu discussões, oficinas e debates relativos a questões sindicais (cooperativas, repressão, representatividade, União Europeia, trabalho precário ou informal, e as deslocalizações…) assim como questões sociais (anti-sexismo, campanha contra a Coca-Cola, trabalhadores migrantes, antifascismo, lutas por casa, anti-imperialismo e neo-colonialismo ...). Encontros sectoriais (metalurgia, educação, construção, correios, saúde, cultura, arqueologia…) e encontros destinados a regiões geográficas (Palestina, Europa, as Américas, Africa, zona Mediterrânea) também tiveram lugar. A conferência acabou com um bloco anarquista/anarco-sindicalista/sindicalista de cerca de 5 000 participantes de cada canto do Mundo, na manifestação do 1º de Maio em Paris.
O que foi particularmente interessante para nós, como referido em detalhe neste artigo, é que, pela primeira vez, a Conferência Sindicalista internacional teve uma presença africana significativa, com delegados representando sindicatos da Algéria (Snapap), Marrocos (UMT, CDT, ANDCN, camponeses pobres, FDR-UDT), Tunísia (CGTT), Guiné-Conakri (CNTG, CEK, SLEG), Costa do Marfim (CGT-CI), Djibouti (UDT), Congo DRC (LO), Mali (Cocidirail, Sytrail), Benim (FNEB, UNSTB, AIPR), Burkina Faso (UGEB, CGT-B, AEBF) e Madágascar (Fisemare).

As posições políticas das confederações de trabalhadores CGT-B e estudantes UGEB de Burkina Faso são descritas pela CNT-F como “sindicalismo de classe, revolucionário, de um ponto de vista marxista”. De modo análogo, o Fisemare de Madagáscar é descrito como sindicato independente marxista, enquanto o Snapap argelino é independente mas não revolucionário, embora seja interessante, pois se opõe ao que era até agora a única confederação sindical do país, a UGTA. A CNTG guineense é o maior sindicato do país, filiado na convencional Confederação Sindical Mundial e obteve uma grande vitória numa greve, este ano. Um representante do sindicato guineense de estudantes no exílio também esteve presente no i07 e a CNT-F disse que os membros do Cocidirail e o Sytrail, sindicatos ferroviários do Mali, filiados na confederação principal do Mali, a UNTM, são companheiros muito sólidos. O UNSTB no Benin estava ligado ao Estado, durante o período «socialista» deste país e como resultado é bastante reformista. Existe também um sindicato «bastante insólito» da RD do Congo, Lutte Ouvrière, que a CNT-F precisa ver no terreno para avaliar correctamente a sua linha. Os congoleses têm, porém, conexões no seu sítio Internet à CNT-F e às confederações CGT de Espanha e SAC Sueca. A CGT-Liberté e o sindicato do sector público CSP dos Camarões, não puderam participar, por causa de problemas com o visto, mas são muito interessantes, segundo a CNT-F.

Como se pode ver pelos delegados dos sindicatos africanos presentes, inteiramente pagos pela CNT, pareciam ser oriundos de sindicatos independentes e radicais influenciados pelo marxismo e é interessante saber-se o que os terá atraído a participar numa conferência anarco-sindicalista e o que significa isso para a difusão das ideias socialistas libertárias na Africa. Alguém me disse que estes africanos vieram porque a CNT queria mostrar-se capaz de organizar um grande acontecimento, convidando organizações africanas mas que, caso estas fossem europeias, teriam muito mais cuidado em convidar. Eu não penso, no entanto, que isto seja verdade, que a CNT tenha feito isto por exibição; aliás, é crucialmente importante para militantes de uma tradição socialista libertaria se relacionarem com organizadores africanos, mesmo se oriundos de uma tradição socialista autoritária (marxista ou outra). Isto porque se deve considerar o contexto em que sua identidade política se desenvolveu, tendo presente que existe pouca tradição socialista libertaria em Africa, no seu conjunto, sendo que muitas tendências de esquerda foram atraídas pelos modelos autoritários / estatistas de socialismo, pelas ideias marxistas ou dum «socialismo africano» como o praticado, nomeadamente, pela Tanzânia, explicitamente anti-marxista. Estas eram, afinal, as correntes a que a maior parte teve acesso.

É também importante ter presente que o «socialismo africano» foi experimentado e decepcionou e que os da esquerda radical em África podem ter ficado desiludidos com a o socialismo de estado e estarem à procura de alternativas. Talvez tenha sido isto que atraiu os delegados de África ao i07? Talvez eles se sintam tão isolados e em situação tão desesperada que os activistas, embora de orientação estatista, estejam na disposição de experimentar qualquer coisa para obter algum apoio da comunidade internacional. Ou talvez, como foi o caso do delegado do Burkina Faso, estivessem presentes apenas para aprender.
Independentemente das motivações, foi uma estratégia coerente da CNT-F, estabelecer contacto com estes grupos, visto que isso facilita um diálogo sobre formas de organização, visões do tipo de sociedade que pretendemos e permite a criação de lutas solidárias entre grupos, nos chamados terceiro e primeiro mundos. Esperemos que estes delegados vindos de África tenham aprendido algo e tenham ficado inspirados pelos movimentos anarco-sindicalista e sindicalista revolucionário que encontraram. Estou convencido que a CNT-F tomou uma iniciativa que eu adoraria ver retomada por outros agrupamentos anarquistas e anarco-sindicalistas mais fortes, com capacidade para o fazer, dos países ex-coloniais.
Há também, uma iniciativa semelhante ao i07, a «Conferência Internacional Europa -Magreb de Coordenação do Sindicalismo de base e social» que será organizada pela CGT de Espanha, em Málaga, a 28, 29 e 30 de Setembro 2007 (*). De acordo com a CGT, “uma rede de relações, informações e acções solidárias tem sido desenvolvida entre organizações das costas norte e sul do Mediterrâneo…” e tais encontros terão como “objectivo de se oporem à presente política neoliberal (…) O principal objective não é partilhar longas exposições sobre diversos problemas, mas realizar um consenso para estabelecer alguns acordos mínimos que nos permitam desenvolver acções de uma forma que mostre uma clara e organizada resposta ao neoliberalismo”.

A influência do marxismo e da União Soviética está a esbater-se na história, e como resultado disso, existe um vazio de ideias na esquerda africana. Neste tempo é crucial para os anarquistas de entrar em cena e de tentar preencher este vácuo, numa ocasião em que as pessoas possam estar a procurar alternativas e possam estar abertas a ideias socialistas libertárias. Os anarquistas não deveriam ser sectários em relação à sua militância junto com a esquerda Africana em geral, pois – sem dúvida - se falharmos de tomar a iniciativa e de avançar as ideias socialistas libertárias e mais especificamente, uma alternativa comunista anarquista, os maiores e mais bem organizados socialistas autoritários irão certamente aproveitar a ocasião para fornecer apoio material e ideológico aos sindicatos africanos, aos movimentos sociais e anti-globalização que, frequentemente, estão desapoiados e por não serem educados sobre os defeitos do socialismo estatista, irão aceitar qualquer apoio que consigam obter.

Se, no entanto, os grupos anarquistas e anarco-sindicalistas do estrangeiro vão tentar desenvolver contactos com sindicatos em África, e procurarem disseminar as tácticas e ideias anarquistas e anarco-sindicalistas, eles precisam de uma estratégia para o fazerem. Um ponto chave a ter em conta, porém, quando se adopta esta estratégia, é que todo o esforço se deve concentrar em tomar contacto com os trabalhadores de base, não com os burocratas sindicais, ou tentar que os líderes sindicais disseminem as informações e ideias que recebam de anarquistas do estrangeiro, junto das bases. Deveria haver um compromisso da sua parte de persistência e de paciência ao construírem tais redes. Seria também de aconselhar que fossem enviados delegados para África para tomar contacto directo com organizadores africanos de forma a avaliar o impacto de suas tentativas, ajustar e rever estratégias quando necessário e medir a adequação da disseminação dos seus materiais, através de líderes sindicais ou de contactos pessoais, junto das bases.
Outro ponto digno de nota é que – dado o fraco tamanho da classe operária africana, os níveis elevados de desemprego e uma escassez relativa de industrialização – a intervenção anarquista do estrangeiro em combates laborais e o cultivar de tendências anarco-sindicalistas apenas na África, não serão suficientes para ajudar a espalhar o anarquismo no continente; deveria ser tomada atenção especial às lutas que têm lugar ao nível das comunidades. Em ordem a espalhar eficazmente suas ideias por todo o continente, anarquistas e anarco-sindicalistas não deveriam confinar-se a lutas laborais mas antes encontrar maneiras de participar e apoiar as lutas sociais e comunitárias e também encorajar trabalhadores influenciados pelas ideias anarco-sindicalistas a transportarem essas ideias junto das suas comunidades e a organizarem-se aí também.
A CNT-F já fez avançar significativamente o debate socialista libertário sobre África, com a publicação do jornal irmão de Zabalaza [da ZACF, em inglês], o jornal em francês Afrique XXI, e tenho esperança de esta publicação tenha uma circulação significativa em África e não se confine à comunidade africana francófona de imigrantes na Europa (embora a sua circulação aí também sirva para espalhar as ideias socialistas libertárias entre os imigrantes africanos na Europa, os quais, por sua vez, poderiam divulgar essas ideias nos seus países de origem). Deve-se ter em conta que este jornal não é feito apenas pela CNT-F e que há também alguns grupos e organizações que não vêm de tradição libertária, o que poderá diluir, até certo ponto, a sua mensagem mas, por outro lado, assegura um público leitor mais vasto que aquele que um jornal puramente anarquista poderia alcançar.
Dada a escassez de tradições socio-políticas socialistas libertárias em África, as quais se confinam sobretudo à parte do Norte e do Sul de África, e seu pequeno e pouco espalhado movimento anarquista, o apoio e intervenção de anarquistas vindos de regiões com tradições anarquistas mais desenvolvidas é vital para o alastrar da ideia anarquista no continente. Em particular, os anarquistas das antigas potências coloniais (que têm a vantagem de laços linguísticos e culturais com África). Também a partilha de experiências de luta e métodos de organização anarquista perante condições socio-económicas semelhantes, tais como na América Latina e noutras partes do mundo em desenvolvimento, seriam benéficas.
Para este objectivo, devemos ter em consideração os seguintes pontos:
1. Como podem os anarquistas do estrangeiro trabalhar com e apoiar os grupos anarquistas existentes e indivíduos em África?
2. Como podem estabelecer e manter contactos com sindicatos africanos, movimentos sociais e grupos de esquerda?
3. Qual a ordem de prioridades em relação ao seguinte: espalhar a consciência anarquista; apoiar as lutas em curso (materialmente, ideologicamente ou por acções solidárias); ou contrariar tradições autoritárias?
4. Como podem tomar parte em campanhas internacionais conjuntas envolvendo grupos africanos?
5. Como podem mostrar solidariedade prática com as lutas de classe em África?
6. Como podem trabalhar para que campanhas de objective único e reformistas se transformem em movimentos revolucionários e promovam uma democracia horizontal, igualitária e participativa?

Quando se relacionando com sindicatos e procurando favorecer a afirmação de uma presença anarco-sindicalista no continente, é sensato evitar ou pôr de lado as lutas sectárias internas que têm apenas enfraquecido vários sectores do movimento. No debate antigo sobre se os anarquistas deveriam organizar-se a partir de dentro dos sindicatos existentes ou trabalharem lado a lado com os sindicatos existentes e provavelmente reformistas, o que deveria ser evitado no contexto africano seria a linha “purista” (que argumenta contra a organização no interior), a qual não funciona, a não ser em circunstâncias muito particulares, que não estão reunidas presentemente em África. A dura realidade em África é que a posição purista que tenta estabelecer sindicatos novos, especificamente anarquistas, irá provavelmente falhar – até ao momento em que exista um crescimento significativo no movimento anarquista africano, propriamente dito. Até essa altura, as novas formações anarco-sindicalistas provavelmente ficariam isoladas, insignificantes do ponto de vista numérico e estratégico – senão mesmo totalmente irrelevantes.
Em conclusão, há duas opções possíveis que poderão ajudar na expansão das ideias e métodos do anarco-sindicalismo em África. A primeira é dos anarquistas baseados em África fazerem trabalho anarco-sindicalista quer nos sindicatos actuais ou, numa fase posterior, tentando erguer novos sindicatos em moldes anarco-sindicalistas a partir do zero. A segunda opção, a mais viável, devido ao número insignificante de anarquistas organizados em África e a sua fraca capacidade relativa – é dos anarquistas e anarco-sindicalistas do estrangeiro colaborarem e participarem no estabelecimento de contactos e de construir solidariedades práticas com quaisquer sindicatos africanos existentes – de preferência independentes e revolucionários onde seja possível.

(*) Nota do tradutor: este encontro realizou-se e o seu resultado foi noticiado nas páginas electrónicas do Luta Social:
[url=http://www.luta-social.org/2007/10/concluses-do-encontro-de-mlaga.html]