Africanos e Europeus

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Sifuna Zonke
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Jan 23 2008 07:42
Africanos e Europeus

Africanos e Europeus

Por Edmundo Monteiro (Angola)

Não são poucos os lugares onde é não apenas tradicional, como é norma desejada, manter o conhecimento patrimonial, em alternativa àquele pensamento, virado para o desconhecido, que é o de, a todo o custo, pretender buscar no estranho tanto o suporte para uma qualquer transformação, como a necessidade de sustentação de uma posição que pretendemos defender ou atacar.

É o que acontece com todos os regimes que, inicialmente defensores de muitas causas, a partir de certas fases, iniciam um processo de auto-justificação assente em pressupostos que nada têm a ver com a realidade dos países onde vigoram. O fascismo, a autocracia, o autoritarismo, o estalinismo são formas de reprodução de poderes que tendem, genericamente, para essa auto - justificação . Não há aqui qualquer tentativa de juntar no mesmo “barco” a Esquerda e a Direita, que muitos hoje afirmam não existir e que têm, por vezes, como sólido apoio, Hanna Arendt. Longe disso. O totalitarismo tem a sua lógica, nunca foi uma forma única - ou de sentido único - para se poder criticar a natureza do poder de um qualquer Estado .

Para que não haja dúvidas sobre o tipo de análise aqui veiculado, entenda-se que europeus e africanos, no âmbito dos países representados na ONU, são como um contraponto nuclear do sistema - mundo em que vivemos. Entre os Europeus, os cidadãos e não os Estados, felizmente ainda muito renitentes à liberalização dos seus regimes no sentido do poder prevalecente nos EUA, ou seja, no sentido da redução de vários dos seus direitos -, há a imposição de uma democracia tendencialmente cada vez mais formal. E a instauração progressiva de um regime inter estatal onde os lobbies e as trocas políticas e sociais, como as económicas, tendem para uma ditadura de poderes empresariais que proliferam por todos os lados - através de regimes unipessoais ou de grupos de administradores e gestores - que lideram organizações cada vez mais ditatoriais - em nome da eficácia, do lucro e do sucesso . Entre os africanos, onde os cidadãos e não os Estados, infelizmente não têm capacidade, por vezes até legal, activa alguma, há um verdadeiro regime misto, que balança entre o autoritarismo formal para quem segue à risca a legalidade e uma verdadeira espécie de corpo escorregadio, onde a capacidade malabarista para assegurar proventos num meio de escassez, é a norma. Dito de outro modo, onde existe uma verdadeira mentira institucional logo à partida na maioria dos poderes - entre a forma e os proventos dos seus detentores. Que, simultaneamente - e esse até acabará por ser o aspecto menos negativo por via da amenização do autoritarismo – são uma espécie de pivots entre os aparelhos repressivos e ideológicos do Estado e uma vida de barbárie onde a cidadania é campo restrito e escasso.

Exemplo paradigmático e emblemático de tudo isso será Muhamar Kadafhi que, no seu lugar de representante de um grupo hegemónico que pretende reproduzir-se politica, social e economicamente, com a ajuda objectiva dos tais poderes internacionais, passa a vida a tentar “descobrir” longe, a responsabilidade da barbárie - reduzida em exclusivo no seu país por via do petróleo - em que a maioria dos seus espaços sociais vive. E, não estranhamente, após entrar directamente em choque com todos os poderes, incluindo o da comunicação social, aparece como o mais interessado em firmar acordos comerciais com os que imediatamente antes criticava. Isto vem a propósito da Cimeira África - UE que se “disputou” em Lisboa, num destes fins de semana.

Procurando logo à partida dar um certo tom à Cimeira, o líder líbio, fugindo desde logo ao verdadeiro esbanjamento gasto para a sua simples manutenção e festim – com apoio “social” e tudo - na capital portuguesa , não falou da África e da Europa actuais de forma saliente, nem dos seus problemas mais prementes. Num ápice, descobriu que a questão mundial das desigualdades e das injustiças reside: a) na ditadura da ONU; b) na necessidade do colonialismo indemnizar a África por aquilo que provocou ao longo do tempo.

Há que se ser muito claro. Ninguém pode estar aqui a atirar “tiros” sem os justificar. Mas, há que ter não apenas os pés no chão. Há também que medir o alcance do conjunto dos problemas que se colocam. Se há experiências em África que conduzem a que o formalismo das constituições nacionais e de muitos projectos parcelares de desenvolvimento - públicos e privados, tenham tido “sucesso”, não deixará de ser verdade que a grande maioria dos projectos advindos das relações internacionais globais têm sido desviados para um “saco multicolorido”que, após circulação, a maior parte das vezes indevida, tem sido um verdadeiro meio de retorno do capital investido em termos geográficos.

O que é que isto quer dizer? Quer dizer que as ajudas, os empréstimos, as dádivas internacionais por via de instituições internacionais ou de ONG mas, principalmente as ajudas que passam pelos governos nacionais - não falando na relação eficiência/eficácia destes em si mesmo - tem acabado por, em grande parte, ter um destes caminhos: a) os bancos europeus e outros, por via do enriquecimento ilícito de variados dos intervenientes no trajecto; b) o enriquecimento ilícito e o imediato esbanjamento dos proventos aparecidos em cada país; c) o aproveitamento, via a própria ONU e por parte das suas sub-organizações, de formas fáceis de progressão profissional e de desigualdade estatutária de oportunidades, como pode ser exemplo, a diferença nem sequer do ponto de vista salarial, mas do ponto de vista de hierarquização da relação saber/poder, nas suas delegações em cada país-membro - entre nomeações de funcionários via administração central ou através da administração de cada país- membro.

Mas, se tal é um dado adquirido - uma desigualdade a partir de estatutos sociais e políticos, numa espécie de feudalismo no âmbito do mercado global - mais importante se tornam os dados que se podem recolher num mesmo circuito de”investimento” que têm passado pelas ajudas globais ou parcelares, por via institucional, aos países menos desenvolvidos. Neste campo, também é dado adquirido - e valeria a pena procurar quantificá-lo através de trabalhos estatísticos de estudantes universitários que procurariam saber, em cada um dos seus países, por exemplo, nos vários sectores de cada administração central ou local, quais os caminhos sociais e económicos seguidos por alguns dos seus funcionários respectivos! – que tudo o que se evidencia, tendencialmente, caminha num sentido preciso: o de monetariamente ser retido nas mãos de um funcionário superior da administração central de um país, nas mãos de um ministro de um outro país, nas mãos de um presidente de ainda um outro país - como é o caso de Mobutu na antiga República do Zaire! Enfim, tudo se desencadeia no sentido da divisão desigual de um verdadeiro “bolo” que se inicia no mais alto - funcionário de organizações internacionais por via de um estatuto profissional comparado - completamente desadequado, e acaba, no domínio estrito do negócio individual do empresário ou patrão privado, que vai “untando” uma diversidade de mãos dada a alta percentagem bruta de lucro final que o seu negócio consegue obter.

A maior parte das vezes, no âmbito de uma barbárie social urbana indescritível. Mas a questão central e é isso que seria excelente analisar, se se comprova ou não, não pode ser aquela que o líder Muhamar Khadafi, desde logo com toda a pompa e circunstância propõe. E porquê? Porque na relação entre Estados mais ou menos autoritários do ponto de vista formal, a maior parte das vezes de uma fragilidade confrangedora (!), e espaços sociais barbarizados, do ponto de vista urbano em primeiro lugar, não pode haver dúvidas. Insistir, como ele diz, que os países (?) colonizados devem ter direito a uma indemnização por parte dos países colonizadores, o que pressuporia genericamente, sem qualquer dúvida, que seriam os Governos e as instituições oficiais a receberem o “bolo” só levaria a que os circuitos económicos, profissionais, empresariais e sociais prevalecentes se reproduzissem em escala muito maior. Ou seja, só levaria a que a questão da necessária organização e da estruturação dos Estados - africanos e...europeus! - e, principalmente, das sociedades, globalmente, ainda fosse mais protelada no tempo . Por isso, do ponto de vista até operacional, quaisquer indemnizações eventuais, só levariam a que aquilo que hoje se veicula na rua mas, formalmente, se esconde numa qualquer assembleia legislativa ou num governo, no mínimo decuplicaria. Seria, comparando com aqueles ”belos” filmes de antigamente, um Farwest tal que teríamos de ir retirar da tumba John Wayne, James Stewart ou Lee Marvin, para melhor interpretar os papéis, no sentido de impor a lei do mais forte ou, simplesmente, da legalidade contra os prevaricadores exponencialmente reproduzidos.

Dá para perguntar: será que Muhamar Khadafi é como aquele jornalista “maluco”, que afirma que a ciência vai, ou já deixou, de existir? Será que é possível um chefe de estado de um país representado na ONU, julgar que os africanos e os europeus, ou seja , as “sociedades civis” são, em si mesmos, estúpidos? O colonialismo é uma parte da História da Colonização Moderna no mundo. Se nós começarmos a exigir indemnizações - e, já agora, desculpas como o fez Joaquim Chissano – a todos os poderes dos estados, reinos, castas, sobados, impérios, condados, etc. que, por via da opressão, da discriminação e do racismo, que se instalaram e consolidaram, através dos seus excessos e das suas mordomias, ao longo dos séculos anteriores ou posteriores à colonização moderna, na minha terra, eu teria de pedir indemnizações a certos senhores cujos avós foram donos de escravos, entre os quais - escravos - está a minha trisavó e ...a do meu conterrâneo que “empolou” essa história.

No âmbito geral, melhor seria que os “povos” todos da região do Sahara corressem para o palácio dos seus “chefes” e colocá-los num óptimo pedestal, em Marte, a apanhar ar com uma peneira. Seria o prémio merecido para quem entendeu que se a ONU - absolutamente necessitada de ser reformada! - tivesse funcionado legalmente há poucos anos atrás, talvez não tivesse havido a invasão do Iraque e tudo o que ela trouxe de novo a todo o mundo, por parte de uns senhores que, infelizmente, tiveram o apoio dos, ao tempo, governos da Ibéria e ... do Reino Unido. Governos esses, suportados por forças políticas que têm militantes devidamente notórios que, aceitando com todo o à-vontade que a UE teve início numa “igualdade virtual” através de uma vontade política clara entre inimigos do dia anterior, não conseguem talvez entender que, mesmo a partir de uma perspectiva das “sociedades civis” africanas e não dos poderes dos Estados respectivos, o facto destes últimos - com os Europeus - poderem partir, através de uma vontade política conjunta, para um projecto global com origem numa “igualdade virtual” entre si, possa ser um verdadeiro benefício a prazo.

Não deixo, no entanto, de me reter numa questão que - esperemos ! - seja cada mais periférica e considerada como verdadeiramente desviacionista. Há que saber, com frontalidade e capacidade, levar avante - uma ninharia que seja - , inclusive através da aproximação entre os poderes dos Estados, a defesa dos reais interesses de Africanos e Europeus nos dias de hoje .

Dezembro de 2007

vivian1ryane25
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Joined: 21-11-12
Nov 21 2012 18:39

essa história é grande e entereçante por que eu achei ela super boa